Budismo e a produção social do sofrimento
Convém esclarecer desde já que a proposta deste artigo, apesar de conter excertos, não opera pela dissecação pretensiosa de textos, retirando frases isoladas de seu contexto histórico, narrativo e doutrinário para validar posições previamente assumidas. Tampouco se trata de uma leitura seletiva ou instrumental do Budismo, na qual o texto é forçado a dizer aquilo que desejamos ouvir.
O procedimento adotado é outro: parte-se da estrutura interna dos discursos, de sua lógica narrativa e de suas cadeias causais explícitas, respeitando o gênero literário, o contexto cultural e os comentários tradicionais que os acompanham. Quando sínteses são apresentadas, elas não substituem o texto, mas buscam tornar visível o nexo entre passagens distribuídas ao longo do discurso, algo amplamente reconhecido pela tradição exegética budista.
Assim, não se trata de impor ao Budismo uma agenda externa, mas de permitir que o próprio texto revele, em sua inteireza, as implicações éticas, sociais e políticas que já estão ali contidas. O compromisso aqui não é com a confirmação de ideias, mas com a compreensão honesta de algumas das causas do sofrimento, tal como o próprio Buda se propôs a expor.
Dito isto, vamos ao que interessa: a partir da imagem que mostra o Buda (O Buda histórico, não um buda) nos tempos contemporâneos, vestindo calças jeans e marchando em uma manifestação popular, perguntamos: Isso é uma dissociação?
Inicialmente, nos debruçemos sobre o verso 355 do Dharmapada. Na tradução de Bikkhu Dhammiko, que é amplamente encontrada na internet, este verso está assim: “As riquezas arruínam só os tolos, não os que buscam o Além. Por ansiar riquezas o imbecil arruína-se tanto a si como os outros.”
Já o fundador da nossa Ordem Niskama Karma, Satyananda Apta, interpretou da seguinte forma: “A riqueza destrói o tolo que não busca o que está além. Por causa da cobiça da riqueza, o tolo destrói a si mesmo como se fosse seu próprio inimigo.”
Perceba que não se trata de uma condenação moral individual, mas de um diagnóstico estrutural: a acumulação sem sabedoria corrói relações, comunidades e o próprio indivíduo. É uma crítica direta à lógica da posse como fim em si.
Porém, o movimento que gera acumulação, quando atravessado pela sabedoria (e puxando sardinha para nosso lado, pela ética budista) deixa de ser, propriamente, acumulação, porque não se conclui como tal. Aquilo que poderia ser retido como propriedade é colocado em circulação, convertido em sustento, cuidado, trabalho, educação e proteção aos mais vulneráveis. Nesse sentido, o que se chama “ter” dissolve-se em um uso socialmente responsável e o valor passa a não estar no volume armazenado, mas na capacidade de beneficiar a vida de modo equânime. A sabedoria não nega os recursos, ela nega a sua captura privada como destino final, orientando-os para o bem-estar comum e para a redução do sofrimento social.
O verso no original pali está escrito assim:
hananti bhogā dummedhaṃ no ca pāragavesino
bhogataṇhāya dummedho hanti aññeva attānaṃ
Bhoga é traduzido como bens, posses, riqueza, conforto mundano.
Dummedha(m) é o insensato, aquele que age sem sabedoria, dominado pela sede de possuir.
Pāragavesino é aquele que busca a outra margem do sofrimento, ou seja, aquele que aspira algo mais profundo que conforto material.
Hananti vem do verbo hanati: ferir, destruir, matar. No contexto do verso, não se trata apenas de violência física, mas de destruição existencial: a riqueza, quando mal compreendida, mata a lucidez, a ética e os vínculos, sendo uma ação corrosiva progressiva.
Bhogataṇhāya é composto por bhoga (bens, posses) + taṇhā (sede, desejo compulsivo). Não é o uso dos bens, mas a sede por possuí-los. É essa sede que move a ação destrutiva. O problema não está nos recursos, mas na lógica desejante que os transforma em finalidade absoluta.
Aññeva attānaṃ literalmente, é a si mesmo e aos outros”.
O verso aponta uma dupla consequência: o insensato, movido pela sede de riqueza, fere os outros pela acumulação, exploração e expropriação, enquanto fere simultaneamente a si mesmo. Não há vitória privada possível num regime de ganância; o dano é sempre compartilhado. O Budismo demonstra isso de modo prático e verificável: a mente governada pela sede de possuir torna-se estreita, defensiva e cronicamente insatisfeita, vivendo sob o sentimento de não satisfação pelo acúmulo e sob o medo de perder, de dividir e de nunca ter o suficiente. Esse medo corrói a paz, adoece o corpo, fragiliza os vínculos e empobrece a experiência de vida. Ao transformar pessoas em meios e o mundo em objeto, o sujeito se isola, rompe relações e produz sofrimento mental contínuo. Aquilo que parecia proteção converte-se em prisão: o dano infligido ao outro retorna como sofrimento psíquico, ético e existencial, vivido aqui e agora.
Vamos agora para o Cakkavatti Sīhanāda Sutta, traduzido como Sutra do Rugido do Leão ao Girar a Roda, que está presente no Digha Nikaya.
É um sutra pequeno. Dessa forma, para além dos excertos que apresento aqui e a partir dos quais montarei um eixo central, posteriormente você pode, se quiser, lê-lo na íntegra, sendo facilmente encontrado na internet.
“E tendo ouvido o que eles disseram, o Rei estabeleceu guarda, defesa e proteção, mas ele não atendeu as necessidades dos necessitados e como resultado a pobreza se espalhou. Com a disseminação da pobreza, um homem tomou algo que não lhe havia sido dado, dessa forma cometendo o que passou a ser chamado de roubo.” - Esta sequência aparece logo no início da seção em que o Buda inicia a descrição da decadência social.
“Assim, por não haver generosidade para com os necessitados, a pobreza se disseminou, do incremento da pobreza, o tomar o que não é dado se disseminou, do incremento do roubo, o uso de armas se disseminou, do incremento do uso de armas, o ato de tirar a vida se disseminou e do incremento do ato de tirar a vida, o tempo de vida das pessoas diminuiu (…)” - Esta é a parte que dá sequência causal explícita de como a violência aumenta em seguimento da pobreza sistematicamente gerada.
Após mostrar que a violência aumenta, o texto segue explicando de que forma cada estado anterior se torna amplo e cada vez mais males sociais se manifestam, como por exemplo no parágrafo seguinte: “(…) o tirar a vida se disseminou e do incremento do tirar a vida, a mentira se disseminou e do incremento da mentira, o tempo de vida das pessoas diminuiu (...)”.
Devemos estudar este sutra não como um discurso sobre reis antigos, mas como uma análise sobre a dinâmica do colapso social. O que o Buda descreve alí não é a degeneração moral de indivíduos isolados, mas sim um processo: quando as condições materiais de existência deixam de ser garantidas, a vida social começa a se desintegrar.
O sutra é claro ao afirmar que quando os governantes falham em prover meios de subsistência aos que deles dependem, a pobreza se espalha. E a pobreza, por sua vez, não permanece como simples carência econômica: ela se converte em roubo, violência, mentira, medo e morte. O Buda não atribui esse processo a uma suposta maldade inata das pessoas, mas à privação concreta que corrói o tecido ético da convivência.
Aqui, mais uma vez, não estamos diante de uma condenação moral individual, mas de um diagnóstico estrutural. O sofrimento coletivo não surge simplesmente do nada, muito menos da falha de caráter das pessoas mais vulneráveis. A história contada pelo Buda pode ser espelhada na contemporaneidade, continuando a mostrar a realidade atual: a organização social deixa de sustentar a vida e, onde falta o necessário, a ética não se sustenta por abstração; ela se fragiliza pela sobrevivência.
O ponto focal do sutra é que a responsabilidade inicial não recai sobre quem sofre a pobreza, mas sobre quem administra os recursos e detém o poder de organizá-los. Quando o poder se omite, não apenas permite o sofrimento: ele o produz. A violência que se segue não é um acidente, mas uma consequência previsível de escolhas políticas e econômicas.
Nesse sentido, garantir sustento, educação, trabalho, transporte e saúde, não é um gesto de generosidade, mas uma condição mínima de estabilidade social. Onde há segurança material básica o medo e a escassez não governam; onde essas consequências não governam, a violência encontra menos espaço para se enraizar. O Buda aponta, já lá no século V antes da era cristã, com notável sobriedade, que a paz social não nasce de discursos morais, mas de condições concretas de vida.
Do ponto de vista do Budismo, reforçado na ética budista do budismo Niskama Karma, algo se torna particularmente claro: não há separação entre transformação interior e organização social. Uma sociedade que produz miséria de forma sistemática está produzindo sofrimento em escala ampliada. Não se trata de simplesmente culpar indivíduos, mas de compreender causas.
A partir deste ponto, nossas reflexões podem nos levar a constatação de que a maneira como este mundo está majoritariamente organizado politica e economicamente, não é possível o atingimento em ampla escala da libertação dos seres; libertação de mara, libertação do samsara.
É imprescindível que nosso projeto pessoal de evolução favorável se enraíze em um projeto de evolução favorável da humanidade, com seu princípio nas sociedades e Estados, alcançando o internacionalismo e uma universalidade.
É imprescindível adquirirmos a capacidade de compreensão de que isso que chamamos de individualidade está inserida em um mecanismo amplo e universal de causalidades e, dessa maneira, que estados de bem-estar social e distribuição equânime, bem como de extração raciocinada, são pontos nevrálgicos a atingirmos se nossa pretensão for o bem a todos os seres.
Antes de terminar, uma nota sobre este Cakkavatti Sīhanāda Sutta, caso você vá buscá-lo para leitura na íntegra: é importante situar sua forma e seu registro. Intelectuais e comentadores budistas contemporâneos são praticamente unânimes em afirmar que este discurso não deve ser lido simplesmente de maneira literal ou apenas historicista. Trata-se de um texto que recorre amplamente à linguagem mítica e épica do seu tempo: referências a “mil filhos”, a reinados de “centenas de anos” e a imagens de conquista militar pertencem ao imaginário político-religioso da Índia antiga, funcionando como recursos pedagógicos, não como descrições factuais nem como prescrições diretas de conduta bélica. Estudos e comentários modernos, como os associados ao Dharmafarer e a traduções canônicas, indicam que o sutra opera em dois níveis simultâneos. Em primeiro plano apresenta-se como uma grande narrativa moral, quase uma peça didática, com exageros deliberados para tornar visível a relação entre governo, ética e destino social. Num segundo plano, mais sóbrio e central, o texto desenvolve uma análise causal rigorosa sobre como decisões políticas e econômicas afetam diretamente a vida ética das pessoas.
Nesse sentido, a figura do cakkavatti (o “rei que gira a roda”) não deve ser entendida como um modelo literal de governante ideal ou como legitimação da violência, mas como uma figura-tipo usada para discutir responsabilidade pública, provisão material e estabilidade social. A linguagem militar e a grandiosidade temporal funcionam como moldura narrativa; o núcleo do ensinamento está na relação entre omissão do poder, pobreza e desagregação social.
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Até breve.






