Talvez surja alguém a dizer que assuntos como este não são temas para um grupo/blog budista. Que falar sobre violência contra mulheres, racismo, pobreza ou injustiça social seria “politizar” um espaço destinado à meditação e ao silêncio.
Mas eu respondo: não existe despertar verdadeiro onde a compaixão é de tal forma seletiva.
O Dharma não é uma almofada onde nos sentamos para esquecer o mundo, é a chama que nos faz vê-lo com mais clareza e responder a ele com mais humanidade.
Se o sofrimento das mulheres, cada uma delas, cada corpo ferido, cada vida interrompida, não nos inquieta profundamente, então não estamos praticando Budismo: estamos apenas cultivando uma bolha espiritual.
1. Por que abordar esse tema em um grupo budista?
Porque é sofrimento. E onde há sofrimento, o Budismo tem algo a dizer e a fazer. A violência contra mulheres no Brasil não é um acidente isolado; é algo que poderíamos, como alusão, chamar de um samsāra estrutural, um ciclo que se repete, sustentado por ignorância, desejo de controle e aversão enraizada. É a forma mais brutal de objetificação, de transformar alguém em “coisa”. Quando uma mulher é assassinada, estuprada, perseguida ou humilhada, toda a comunidade humana se afasta um pouco mais da possibilidade de iluminação coletiva. A prática budista não deve se restringir ao pausar em meditação e unicamente ao olhar interior. Ela deve se estender à polis, às ruas, às casas, às relações. Se não enxergarmos o sofrimento social, nossa meditação vira anestesia e não caminho.
2. E o que dizer a quem acha que é “fora de escopo”?
Eu lhes perguntaria: Qual escopo você imagina que o Budismo possui? Se o Dharma não abrange a vida, ele se torna conceito. E se sua compaixão não alcança as vítimas da violência social, então talvez não seja compaixão — apenas conforto espiritual. O Buda não se retirou do mundo: Ele caminhou entre viúvas, doentes, marginalizados, pessoas em desespero. Seu silêncio era profundo, mas seu compromisso era ativo. A neutralidade diante da injustiça é apenas um nome bonito para covardia espiritual. Dizer que o sofrimento das mulheres é “assunto dos outros” é repetir a cegueira dos brâmanes que o Buda tanto confrontou.
3. Por que budistas não podem se calar?
Porque todo silêncio diante da violência é uma forma de cumplicidade. Se vemos injustiça e não agimos, estamos de fato reforçando a roda do samsāra social.
O Budismo Niskama Karma nos lembra:
• agir sem apego,
• agir sem esperar recompensa,
• agir porque é o correto,
• agir porque a vida nos solicita.
O silêncio não é sempre equanimidade — às vezes é apenas medo disfarçado de espiritualidade. E quando se trata das mulheres, esse silêncio já custou vidas demais.
4. O que podemos — e devemos — fazer?
1) Falar: Sim, falar. Nomear a violência. Não deixar que a normalização do horror se torne hábito. O Dharma aponta para a fala correta, que inclui também romper o silêncio cúmplice.
2) Educar: Nossas crianças, nossos filhos, nossos alunos, nossos colegas. Educar para o respeito, para o cuidado, para o reconhecimento da dignidade alheia. Educar para desprogramar a cultura da violência masculina.
3) Acolher: Mulheres que sofrem violência precisam de um lugar seguro — físico, emocional e espiritual. Um grupo budista tem o dever de ser esse lugar.
4) Denunciar e apoiar: A compaixão que não se levanta para proteger vidas é apenas sentimentalismo. Budistas não deveriam ser meramente passivos, mas sim praticar a “compaixão em ação”.
5) Trabalhar para transformar estruturas: O sofrimento não nasce no vácuo. Há sistemas que o produzem — e o Budismo sempre foi, desde o Buda histórico, uma crítica viva às estruturas de opressão.
6) Cultivar homens mais conscientes: A violência contra mulheres é, quase sempre, praticada por homens. A prática masculina budista deve incluir a desconstrução da masculinidade tóxica, da posse, da objetificação, da raiva.
5. Por fim: por que isto nos diz respeito? Porque ser budista está além de lembrar do Dharma; está em não esquecer da humanidade. Se o Dharma não nos torna mais sensíveis ao sofrimento das mulheres, então ele não nos transformou, apenas nos enfeitou de boa vontade. Meditar é essencial. Mas há momentos em que a vida nos pede mais do que silêncio. Ela nos pede presença, coragem, e a disposição de enfrentar as sombras do mundo com o mesmo compromisso com que enfrentamos as sombras da mente.
Se calarmos, quem falará? Se não formos nós — que escolhemos um caminho de atenção, compaixão e ação — quem então?




